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CULTURA 24/01/2019 “Histórias Mal Ditas” muito bem contadas no Centro de Vivência do Juquery

“Histórias Mal Ditas” muito bem contadas no Centro de Vivência do Juquery

Barulho de sirene, cassetete na mão, censura, tortura, prisão, e muitas histórias mal contadas, ou digamos que mal ditas? Foi isso e muito mais que aconteceu entre os anos de 1964 e 1985 durante a ditadura militar no Brasil.

Manifestações contra o governo aconteciam, pessoas desapareciam, e este texto que você lê aqui, ele nem poderia ser escrito se fosse naquela época, por causa da censura. Com toda certeza seria barrado.

Para relembrar os momentos vividos por pessoas guerreiras que lutaram pela liberdade de expressão que cada um tem hoje, foi realizada a apresentação da peça Histórias Mal Ditas no último sábado (19), feita pelos alunos da oficina de teatro intermediário da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer.

Uma peça itinerante, com vários cenários e ambientes feitos exatamente para passar as sensações de quem viveu no período da ditadura.

Um resumo do que vai ver na peça

As histórias apresentadas ao público são reais e aconteceram entre os anos de 1964 e 1985, quando o Brasil viveu o período da Ditadura Militar.

A trama mostra como agia a comunicação da imprensa brasileira em tempos de censura. Mostra também como era a postura do governo e apresenta casos que não tiveram respostas até hoje. É uma viagem pelo tempo e espaço.

Quem assistiu gostou!

Ao final da apresentação, após passar por todas as salas, muitas pessoas estavam emocionadas com o que viram no espaço do Juquery.

Uma delas foi Giovana Gardinali, de 19 anos, que está há 10 anos em Franco da Rocha. Ela comentou sobre a peça que assistiu. “Foi bem emocionante ver uma peça como essa em Franco da Rocha, de mostrar a realidade, porque as vezes você vê sobre a ditadura, aprende na escola, mas essa peça mostrou como que realmente aconteceu. É marcante, pois quando você estuda não tem todo a dimensão e conhecimento. Eles (atores) usam a simulação da imprensa, coisas chocantes, o que te faz sentir como que tudo aconteceu naquela época”.

As diferentes salas também foram um dos pontos marcantes que fez parte da vivência de Giovana na peça. “A sala da prisão era mais abafada, quando chegamos fomos recepcionado com refrescos, ambiente aconchegando em que pudemos ler as matérias da época. De repente você fica nervoso por ficar na parede. Aí você vê acontecendo na imprensa sobre o que aconteceu na sala anterior. Você se coloca naquela época ao ver que a imprensa não fala a verdade, não era aquilo que tinha acontecido. É algo que impacta bastante”.

Também analisando a cena da prisão, uma das mais fortes da peça, Victor Leonardo, morador na Vila Santista também fez sua análise do que viu. “Eu achei interessante que cada sala mudava um pouco a visão que eu estava tendo da obra. Na terceira sala, que creio que era o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) - prisão, deu pra perceber que tinham muitas escritas na parede, feitas por quem passou por ali”, afirmou.

Quem viveu a peça

Os atores deram um verdadeiro show nas apresentações. Cada um com sua parte importante no desenrolar das cenas.

Muita emoção foi transmitida graças as intensas pesquisas feitas pelo grupo. Todo o envolvimento de cada um que trouxe pro real algo que aconteceu há décadas, que foi uma parte triste da história do nosso país.

Amanda Barboza, de 20 anos, foi a responsável por interpretar a vida de uma das prisioneiras da peça.

Ela falou sobre como foi fazer sua personagem. “Tivemos um trabalho de pesquisa muito grande durante o ano passado. Escolhemos o tema muito cedo e através disso lemos livros, fomos no Museu da Resistência, conversamos com pessoas que tiveram vivência em celas realmente, como a Amelinha, ouvimos os depoimentos deles o que alimentou muito meu personagem, porque você ouvir diretamente da pessoa que viveu aquilo, passou por aquilo, é como se entrasse no mundo dela”.

Ficar frente a frente com quem viveu a realidade foi importante, conforme relata Amanda. “Foi diferente, pelo fato que eu via depoimentos pela internet, mas a diferença foi o olho no olho, sentir, viver aquele momento. Foi um pouco difícil quando peguei o texto, não só por ser grande, mas porque tinha que trazer um sentimento muito forte, de você pensar que aquilo realmente acontecia. Que não é algo que tiramos da nossa cabeça”.

Os depoimentos colhidos em cada encontro viravam cenas. “Foram depoimentos reais que nós ouvimos. Inclusive, na cena da sela. Tudo que montamos foi de coisas que ouvimos de pessoas reais, a questão da carta, elas cantando, o rádio que elas escondiam”, contou.

Amanda está desde 2014 fazendo parte do núcleo de experimentações teatrais no Centro Cultural. Agora, chegou ao módulo intermediário, criado no último ano.

Mentora da apresentação

Comandar um grupo de jovens não é tarefa fácil, mas Tábatha Lima Savarezzi, de 33 anos, tirou de letra. Ela foi estagiária em 2016 e conseguiu sua promoção em 2017, por meio do edital de arte educadores, trabalhando com a turma infantil e adolescentes. Em 2018 foi a pioneira na turma de teatro intermediário. Na turma, assumindo os atores dessa apresentação.

Mas não pense que foi tarefa fácil não, ela descreveu um pouco das suas dificuldades no decorrer do último ano. “Para mim foi uma experiência incrível, foi a primeira vez que eu arrisquei a trabalhar a proposta de teatro intermediário. Foi um desafio enorme em vários aspectos. Pela primeira vez trabalhei um tema tão real, de escrever um texto em cima de pesquisa, pela primeira vez fizemos uma peça itinerante, foram muitos desafios e achei bacana cada momento dentro da sala com os alunos”.

Segundo Tábatha, a ideia da peça partiu de experimentos em aula. “Foi quando decidimos que a peça seria no Centro de Vivência, optamos então em fazer as aulas já no espaço”.

Ela revelou como surgiu a ideia de separar os ambientes por sala. “Em um determinado dia fechei uma das portas da sala e pedi para os alunos imaginarem que era uma prisão, para saber como eles reagiriam. Nisso começou a rolar a primeira experiência. No início estava parecendo mais um hospício do que uma prisão. Fomos repetindo esses exercícios, quando percebi que seria bacana ter essa experiência por ambientes”, todos adoraram a ideia, afirmou a professora.

Caminhando para a última semana de apresentações da peça Histórias Mal Ditas, dentro da programação de “Férias no Parque”, Tábatha falou sobre seu sentimento após o sucesso das sessões que estavam sempre lotadas. “Estou imensamente feliz e grata porque a galera topou, embarcou e mergulhou de cabeça. Toda dor do processo de pesquisa valeu a pena”.

Quer ver de perto tudo isso contado aqui e assistir a peça? Então anote na agenda e chegue com antecedência, pois as vagas são limitadas:

Sábado | 26 de Janeiro
Teatro: Histórias Mal Ditas;
Horário: 1ª sessão às 18h30 e a 2º sessão às 21h;
Local: no Centro de Vivência em Múltiplas Linguagens, dentro do complexo Hospitalar do Juquery;
Endereço: Av dos Coqueiros, s/n, Centro de Franco da Rocha

(Texto e foto: Ewerton Geniseli)