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SAÚDE 27/06/2019 Entre medos e superações: as reviravoltas na vida de um artista

Entre medos e superações: as reviravoltas na vida de um artista

Irmão mais velho de uma família simples, filho de Isaura e Osvaldo, Antônio Rosas Satílio nasceu em 1963, na cidade de Bauru, interior de São Paulo. Começou a pintar muito jovem e, em meio aos rabiscos e rascunhos no chão, ainda criança desenvolveu a habilidade de desenhar as letras mesmo sem saber ler.

Devido às dificuldades financeiras, a família vivia em constante mudança de moradia já que o pai não se estabilizou com uma renda fixa. Antônio possuía uma forte ligação com a sua mãe, pois era ela quem oferecia afeto e cuidados, diferentemente da relação que possuía com o pai, que grande parte das vezes era um homem violento.

No final da década de 60, os Satílios veem uma chance de tentar vida nova na grande São Paulo. Somente com as malas e a esperança de um futuro melhor, chegam até a estação da Luz. Ao tentar reestruturar a família na capital, enfrentam mais uma dificuldade: o pai os abandona com a desculpa de sair em busca de alimento para a família. "A gente ainda estava na estação da Luz com as malas quando meu pai disse que iria comprar um bolo para minha irmã, ele foi com o dinheiro que tínhamos e sumiu", lembra Antônio.

Sozinha, sem dinheiro e com medo do futuro, a única saída encontrada por Isaura era deixar os filhos na antiga Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem), que consistia num abrigo para crianças e adolescentes em situação de rua. Posteriormente a fundação se tornaria a conhecida Febem, atual Fundação Casa.

Precisando de um emprego, o adolescente Antônio encontrou apoio na Liga das Senhoras Católicas, uma organização social sem fins lucrativos que desenvolve programas socioeducativos e de cidadania. Nesse período conheceu Daniel, um serigrafista que ensinou para ele as técnicas de estamparia, levando-o a estabelecer contato com outros artistas que o inspirariam a entrar no mundo da arte.

Percebendo o talento natural do jovem pintor, a diretora da Liga das Senhoras Católicas o encaminhou para a Panamericana Escola de Arte e Design, a fim de aperfeiçoar suas técnicas.


Em meio ao seu desenvolvimento artístico, ele ficou sabendo dos problemas de saúde da mãe e volta para casa, porém, nessa época começaram a surgir os primeiros sintomas da esquizofrenia. A doença consiste na alteração neuroquímica do cérebro, que causa uma realidade paralela que motiva a ter visões e audições desorganizadas.

Após a morte da mãe, o artista se vê sozinho e decide vender seus quadros na Praça da República. Em uma dessas ocasiões conhece um homem chamado Rocco e faz com ele um acordo no qual troca seus quadros por moradia. “Viver da arte não é fácil”, relembra Satílio.

As divergências em questões de organização entre Satílio e Rocco refletem na piora dos sintomas da esquizofrenia. Percebendo que precisava de ajuda, ele procurou um posto de saúde que o encaminhou para o Hospital Psiquiátrico do Juquery, em Franco da Rocha.

Com a autonomia e tratamento humanizados recebidos no local, o pintor sente que pode pintar livremente, o que trouxe grandes melhorias no seu quadro psíquico, colaborando para que ele recebesse alta após três anos de permanência.

Encaminhado para a Fazenda São Roque, em Franco da Rocha, Satílio participa de um trabalho de ressocialização de pacientes com transtornos mentais, e lá o artista ficou por 19 anos.

Estilo de pintura

Inspirado pelo movimento artístico realismo, o pintor, hoje com 56 anos, procura eternizar suas memórias em quadros, refletindo a realidade vivida em diferentes momentos de sua vida.

Como na obra “Artista Singular”, em um quadro com tons de cores fria que mostra os pés de sua mãe, uma lembrança acolhedora que ele guarda das refeições que realizava no chão, enquanto dona Isaura costurava na casa simples em que moravam, no interior de São Paulo.

Suas referências vêm de famosos pintores do mundo da arte como Van Gogh, Leonardo da Vinci e Almeida Júnior levando-o a frequentar museus para admirar essas grandes obras. Sua forte ligação com a natureza também o influencia em muitos de seus quadros. “Quero concentrar a minha vida na arte e no que isso me proporciona”, afirma Satílio.


Outro formato de suas pinturas, são as representações dele mesmo criado por meio de personagens, como em seu quadro preferido “Simba Marujo”, que possui elementos que remetem as suas experiências e personalidade, representando a sua essência. “Gosto de transmitir o que sinto, a arte que eu vejo”, conta.

Com todo seu trabalho e dedicação construído em anos, o artista possui um acervo com mais de 20 obras no CAPS II e outras tantas espalhadas pela região, como no Juquery, na Fazenda São Roque e nos comércios da cidade. Por diversas vezes teve seus quadros exibidos em exposições e mostras por Franco da Rocha.

O reconhecimento também levou o pintor a lugares que nunca havia imaginado, falando em palestras em faculdades sobre sua vida, sobre resiliência e arte, assuntos que tanto ama. “Enquanto eu tiver vida aqui, vou fazer tudo cada vez melhor”, afirma entre sorrisos e gestos.



O CAPS II

A Lei 10.216 de 2001, conhecida como lei da Reforma Psiquiátrica é considerada um marco ao oferecer a reinserção social aos pacientes com transtornos mentais, possibilitou que o artista chegasse até o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) II Luiz Marcelo Mazarini Novaes. No local, Satílio recebeu todo o apoio necessário para estruturar sua carreira artística, tornando-se financeiramente independente.

O CAPS é um equipamento de saúde que dispõe de oficinas terapêuticas e acompanhamento médico. Todo esse trabalho visa acrescentar desenvolvimento cultural e pessoal aos atendidos, diminuindo o dano causado pelo transtorno mental. “Aqui estou tendo a oportunidade de trabalhar no que eu gosto e ao mesmo tempo cuidar da saúde mental e espiritual”, afirma o pintor.

Com o tratamento médico e as terapias em grupo, Antônio aprendeu a importância dos valores sociais. “Com o tempo ele foi ficando cada vez mais sociável, se comunicando melhor e demonstrando empatia pelos problemas dos outros pacientes”, conta a psicóloga e gestora do CAPS, Ana Paula Andreto. "Embora a doença traga uma personalidade narcisista, ele se preocupa muito com as pessoas que estão ao seu redor", afirma.


(Texto e fotos: Danielle Magalhães e Gabriela Saça)