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CULTURA 11/10/2019 2º Festival Soy Loco por Ti Juquery mobiliza o público com arte e diversão

2º Festival Soy Loco por Ti Juquery mobiliza o público com arte e diversão

O 2º Festival Soy Loco por Ti Juquery aconteceu entre os dias 19 e 22 de setembro e reuniu diversas atrações abertas ao público, resgatando memórias que o tempo tentou apagar, mas que ainda estão guardadas na história da cidade.

A prefeitura, por meio da Secretaria da Cultura, em parceria com a Trapézio Produções Culturais, promoveu o festival no intuito de propor uma ocupação cultural no Complexo Hospitalar para trazer um novo significado ao espaço. O projeto foi contemplado pelo ProAC (Programa de Ação Cultural) ICMS e recebe patrocínio da Oi e apoio cultural do Instituto Oi Futuro.

Veja fotos do evento.

Foram mais de 50 de atrações que incluíram performances musicais, visitas guiadas, exposições de arte, feira de artesanatos, seminários, contação de histórias e muito mais.

O que não faltou foi música para embalar os convidados, que curtiram o som do bloco da “Casa Velha” logo na abertura do festival. A banda puxou um cortejo da estação de trem da cidade, até ao Juquery, ao som de ritmos tradicionais brasileiros, como o maracatu de baque virado, samba-reggae e muito mais.

A batida envolvente do grupo musical Feminine Hi Fi, também acrescentou ritmo e reflexão à primeira noite da programação, projetados na temática da valorização da mulher no contexto atual, fazendo todo mundo dançar ao som de muito reggae.

Levando ao público culinária, artesanato e produtos orgânicos, a Feira Juquery Art Vila comandou a área gastronômica do evento. O projeto é uma parceria com a Secretaria de Assistência Social do município e compõe um dos eixos do Programa Municipal de Fomento à Economia Popular e Solidária de Franco da Rocha, que incentiva pessoas de baixa renda a se tornarem empreendedores solidários.


O Jardim do Ambulatório se tornou palco para a celebração da cultura hip hop. O local recebeu Pancho Trackman e DJ Nato _ PK, artistas fazem parte da Beatbrasilis Orquestra e da banda do MC Max BO; coletivo dos MCs e Beat Boxers WuTremClan que atua nas linhas do metrô e da CPTM na cidade de São Paulo e para finalizar, aconteceu o show do coletivo Caos do Subúrbio, grupo de Hip Hop de Franco da Rocha.

Uma das atividades mais aguardadas do Soy Loco era a roda de conversa com os artistas residentes. O bate papo aberto que reuniu os 8 selecionados pelo festival, eles desenvolveram um trabalho artístico em uma residência que durou 12 dias, resultando em obras com diferentes estilos visuais, cênicos, musicais, performáticos e audiovisuais.


No encontro eles falaram sobre suas experiências durante processo de imersão, que teve como principal tema o Complexo Hospitalar do Juquery, trazendo fatos do passado que se coincidiam com o presente, mas que por meio da arte proporcionaram diferentes perspectivas da história do Juquery e seus significados.

Sanidade e loucura

Arte interativa, aberta e dinâmica foi um dos pontos altos do festival com a vivência “Não se trata de curar: 133 conselhos”, de Juliana Jardim e Luiz Pimentel. A atividade aconteceu na recepção do antigo pronto socorro do hospital e reuniu traduções de 133 pequenas fórmulas textuais da obra “Semente de crápula - Conselhos aos educadores que querem cultivá-la”. O texto foi redigido por todo o espaço para a leitura do público.

Enquanto assistia à contação de história "Causos no Juquery - histórias para serem contadas" do professor Ednaldo Carmo, a jovem Beatriz Motta contou que saiu de São Paulo com os amigos para conhecer o festival. “Eu me preparei para vir, chamei uns amigos. Acho muito legal conhecer o Juquery de perto, tenho parentes em Francisco Morato e já ouvi tanta história sobre o hospital. Não esperava que fosse tão grande e tão bonito. Acho muito boa a ideia de trazer cultura pra um lugar como esse”, frisou.


Em sintonia com o clima do Complexo Hospitalar, as artistas Ana Moraes e Denise Aires fizeram a leitura de uma obra clássica de Machado de Assis, “O alienista”. Acomodadas na escadaria do jardim do relógio, as duas recitavam para o público a história do personagem Simão Bacamarte, um médico que cria a Casa Verde, um local para estudar a mente humana de maneira inusitada.

Neste ano, o festival ocupou a maior parte do espaço do complexo com oficinas, apresentações teatrais, vivências e contação de história. Entre os locais mais visitados estiveram o jardim do relógio, o antigo ambulatório, as galerias, passarelas e uma das varandas dos galpões, que foi transformada em palco para receber atrações musicais, uma delas foi a banda Vitoriano e seu Conjunto.


A sétima arte também foi contemplada pelo público do Juquery com o curta-metragem “Stultifera Navis” e o clássico longa ganhador do Oscar de Melhor Ator, “Um Estranho no Ninho”. Ambos os filmes, cada um sua em proposta, abordam a temática psiquiátrica e os múltiplos conceito da loucura.

Luta por igualdade, herança cultural e identidade

Ana Flavia Cavalcantti levou crítica social e luta por igualdade na performance “Serviçal”. A artista convidou negros e negras que participavam da plateia a contarem suas histórias de trabalho, mesclando com depoimentos colhidos no trabalho “A babá quer passear”. A ideia é tecer uma crítica contundente às condições das empregadas domésticas no Brasil, além de provocar a reflexão acerca do trabalho doméstico e todas as subjetividades que o envolve.

“Outras portas, outras pontes”, é o nome do espetáculo de dança apresentado pela Cia Sansacroma que propôs ao público do jardim relógio um olhar sobre o apartheid existente no Brasil, quando negros operários são tratados como sub-cidadãos e os espaços físicos geram separações de classes numa cidade miscigenada, explorando questões como herança cultural e identidade do brasileiro.

Brincadeira e diversão

O público infantil não ficou de fora da programação do Soy Loco, que ofereceu atrações lúdicas como o teatro “Delírios, Sombras do Insciente”, que utilizou a própria arquitetura do Juquery como cenário para criar belas figuras no melhor estilo luz e sombra. O espaço educativo contou com a presença de artistas locais como Fabio Dasher e Edmar Almeida para conduzir a criançada na criação de fantasias e cenários criativos. E teve ainda teatro de palhaços, contos e oficinas.


Unindo fanfarras, bandas e marchinhas de carnaval, a Charanga do França convidou o conjunto Cornucópia Desvairada e a Fanfarra Manada para tocarem clássicos do rock, da música popular brasileira e os clássicos do brega. Como não poderia ser diferente, o público seguiu as bandas para dançar, cantar e fazer lindas fotos para as redes sociais.

A senhora Ana Maria Oliveira da Silva que trabalha há mais de 30 anos no Juquery, relata como fica feliz em ver o local repleto de pessoas.

“Eu já sou aposentada, mas continuo trabalhando porque tenho um carinho muito especial pelo Juca. Trabalhei em muitas áreas dentro do complexo e conheci muita gente. Os meus filhos não saíam daqui, meus netos também. Eu tenho 15 netos e 5 deles nasceram aqui no hospital”, relembra.


Enquanto assistia à apresentação musical, Ana Maria encontrou uma antiga companheira de trabalho, a senhora América Lima. 

Com 80 anos, América conta que conhece o Juquery como ninguém. “Conheço de ponta a ponta, mesmo não sendo franco-rochense”, diz entre risos. “Eu nasci em São José do Rio Preto, prestei concurso para trabalhar de copeira, passei e me mudei para o Parque Vitória. Aqui eu me casei, tive todos os meus filhos no Juquery e só me aposentei porque completei 70 anos e não pude mais continuar. Aqui é minha vida, a história da minha família está nesse lugar, em cada pedacinho. Morro de saudade do Juquery. É muito bom estar de volta”.

E no finalzinho do festival, o apagar das luzes ficou por conta do ícone da música caipira da região, o violeiro Ranulpho Faria. Acompanhado da Orquestra de Viola Caipira de Franco da Rocha ele tocou os clássicos de seu repertório que já fazem parte do imaginário dos franco-rochenses. Assim como a célebre frase que dá nome ao festival e é de autoria de Ranulpho: Soy Loco Por Ti, Juquery, uma referência ao conceito de loucura, indissociável da história do Complexo Hospitalar, mas que a cada edição ganha um novo significado.


Texto: Danielle Magalhães e Luana Nascimento - Foto: Luana Nascimento